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Os Reinos Infernais

De IS Impérios Sagrados
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Muito antes dos grandes impérios surgirem em Asdem, quando a Luz ainda havia desaparecido recentemente e os Celestes assumiam para si a responsabilidade de preservar a criação, surgiu um problema que eles jamais imaginaram enfrentar. A Luz havia confiado aos humanos parte de sua própria essência, mas também deixara aos Celestes uma missão: proteger o equilíbrio do universo até que um novo tempo chegasse. Para cumprir esse propósito, perceberam que suas asas já não eram suficientes. Elas lhes permitiam atravessar os céus, manipular a magia e alcançar praticamente qualquer lugar de Asdem, das Gêneses da Magia ao Mundo Além dos Véus, mas não continham o poder necessário para substituir a presença da própria Luz. Era preciso encontrar uma fonte de energia que se aproximasse da força dos Sóis.

Depois de incontáveis estudos, voltaram seus olhos para um continente quase desconhecido pelos demais povos. Separado de todo o restante do mundo por um imenso Mar de Fogo, existia uma massa continental formada por oito grandes reinos independentes. Ali habitavam criaturas cuja origem jamais foi ligada aos deuses, às Forças Universais ou aos mortais. Eram uma forma própria de vida, nascida das profundezas de Asdem, cuja existência se organizava em torno da Chama Vermelha e Negra, uma energia primordial que parecia pulsar desde o coração do planeta. Não era uma chama comum, nem uma manifestação da magia ou do ocultismo. Tratava-se de uma força viva, capaz de transformar matéria, corpo e espírito, cuja intensidade fazia dela a manifestação natural mais próxima do poder irradiado pelos três Sóis.

Os habitantes daquele continente jamais constituíram um único povo. Cada um dos oito reinos desenvolveu sua própria forma de organização, suas próprias linhagens e sua própria maneira de compreender a existência. Não possuíam reis ou rainhas como os mortais entendem essas palavras. As lideranças não possuíam gênero e reproduziam-se de maneira assexuada, por um lento processo de fissão binária que podia levar anos ou mesmo décadas para ser concluído. Cada novo governante carregava fragmentos da memória de quem lhe dera origem, fazendo com que o conhecimento de milhares de anos fosse preservado sem a necessidade de escrita ou genealogias. Também não construíam cidades semelhantes às humanas. Seus territórios cresciam juntamente com a própria geografia vulcânica, formando estruturas orgânicas de pedra, magma e minerais vivos, moldadas continuamente pela Chama Vermelha e Negra.

Quando os Celestes chegaram ao Continente Infernal, não vieram como conquistadores. Vieram como estudiosos. Acreditavam que poderiam retirar apenas uma pequena parcela daquela energia e incorporá-la às próprias asas para continuar cumprindo a missão que lhes fora confiada pela Luz. Contudo, para os governantes infernais, a Chama Vermelha e Negra não era apenas uma fonte de poder. Era a própria origem de sua existência. Retirá-la significava condenar toda uma forma de vida à extinção. A negociação tornou-se impossível. O que começou como um encontro entre duas civilizações transformou-se rapidamente em uma guerra cuja dimensão jamais seria repetida na história de Asdem.

Os oito reinos, que durante milênios haviam permanecido independentes e frequentemente rivais entre si, compreenderam que nenhum sobreviveria sozinho. Pela primeira vez desde a origem de seu continente, abandonaram todas as disputas internas e formaram uma única aliança. Ainda assim, a diferença de poder era quase intransponível. Os Celestes dominavam praticamente toda Asdem. Possuíam acesso às Gêneses da Magia, percorriam livremente o Mundo Além dos Véus e utilizavam uma magia que nenhuma outra civilização conseguia enfrentar de igual para igual. A guerra espalhou-se por mares de fogo, rompeu montanhas, alterou rios de magma e atingiu regiões muito além do próprio continente. O conflito tornou-se tão devastador que, mais tarde, seria lembrado pelos sobreviventes como O Grande Cataclisma, a maior ameaça já enfrentada por toda a vida de Asdem antes mesmo das grandes guerras entre deuses e mortais.

Percebendo que a continuidade da guerra significaria a extinção absoluta de sua espécie, os oito reinos tomaram uma decisão sem precedentes. Reuniram seus maiores estudiosos da Chama Vermelha e Negra e realizaram o maior ritual já concebido por sua civilização. Não era uma magia semelhante à dos mortais nem um ritual baseado no ocultismo conhecido pelos deuses. Era uma reconfiguração da própria realidade, alimentada pela energia primordial que sustentava aquele continente desde sua origem. O objetivo não era vencer os Celestes. Era desaparecer diante deles. O ritual rompeu os limites do mundo material e arrancou todo o Continente Infernal de Asdem, deslocando-o para outra camada da existência. A partir daquele momento, os antigos reinos deixaram de ocupar um lugar físico no planeta e passaram a existir em uma dimensão própria.

Foram os Celestes que deram a esse novo lugar o nome de Plano Infernal. Seus habitantes jamais utilizaram essa denominação. Para eles, continuava sendo apenas sua terra ancestral, agora separada do restante da criação. Entretanto, o ritual teve um preço inesperado. A ruptura entre os planos alterou profundamente a própria natureza de seus corpos. A energia da Chama Vermelha e Negra já não era suficiente para sustentar a vida como antes. Lentamente, toda aquela civilização passou a depender da matéria orgânica proveniente de outros seres vivos. Não importava sua origem. Carne tornou-se alimento, fonte de energia e condição indispensável para a sobrevivência. Essa necessidade moldou sua biologia, sua cultura e sua relação com todos os demais povos de Asdem durante os milênios seguintes.

Séculos depois, a história dos Celestes tomaria um rumo igualmente trágico. Aqueles que um dia haviam assumido a missão de proteger o universo acabariam divididos pelas guerras que consumiram Asdem. Nos acontecimentos recentes da campanha A Era dos Duldrons, parte significativa dos Celestes decidiu aliar-se a Kalien, acreditando que a ordem imposta pela Ordem dos Duldrons garantiria a estabilidade definitiva do mundo. A decisão revelou-se desastrosa. Durante a ofensiva conduzida pela Resistência, praticamente toda a antiga civilização celeste foi destruída. Assim, os mesmos seres que um dia quase extinguiram os oito reinos do Continente Infernal terminaram sua história à beira da própria extinção, encerrando um dos ciclos mais antigos e contraditórios de toda a história de Asdem.